
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Um Homem Singular

sábado, 27 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
...

De rosas não sei
davas-me rosas.
às vezes davas-me rosas.
os olhos e o silêncio
vertias nas minhas mãos às vezes.
quando depois as luzes fugidias
me entregavam na noite em ti
eu dizia, Quero trazer à superfície
os espelhos que melhor te desenham.
eu dizia, Não é um sopro
a embriaguez que trago em mim.
eu dizia, Hei-de colher no teu peito
a linha exacta do meu horizonte.
não me ouvias. ou esqueceste. não sei.
não sei.
eram cheias as vinhas
e o sol ausentava-se devagar.
setembro talvez.
despedi-me uma manhã.
agora a mesa está vazia
e tenho nas mãos um cacho sem sabor.
de rosas não sei.
Publicado na revista Ara Gris (N.º 2, Janeiro de 1986)
sábado, 20 de fevereiro de 2010
"Abstracções" - Saulo Silveira
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
O fascínio do giz branco
A sala de aula, enorme, estava cheia de meninas de bata branca e algumas conversavam entre si. Volta e meia, uma senhora muito pequenina vinha ver se tudo corria bem. Era a Menina Isabelinha, a nossa contínua, e surge tão nitidamente na minha memória que agora mesmo a vejo limpar as lágrimas às mais choronas, refrear os ânimos das mais atrevidas, olhar por nós como se não houvesse outro mundo.
Quando a minha professora chegou, atravessou a sala em silêncio. Muito alta e já velha – achei. E digo achei porque, bem feitas as contas, só a minha pequenez o diria assim. A Sr.ª D.ª Judite leccionou ainda tantos anos que não podia ser velha nesse meu primeiro dia de aulas, um 7 de Outubro luminoso numa cidadezinha do interior.
Nesse tempo ainda se fazia exame na 4.ª classe. Meu pai acompanhou-me no dia das provas orais. Curiosamente – e só agora alinho assim estas memórias – entrei com a mãe, saí com o pai, e não me recordo de, entre uma coisa e outra, algum deles me ter ido levar ou buscar. Tive sempre, no caminho, a companhia de algum dos meus irmãos.
Durante esses quatro anos fui feliz. Gosto ainda da imagem que tenho da minha professora: rosto sereno, cabelo grisalho, a voz clara, segura. Lembro-me da textura da minha pasta castanha, do frio do fecho de metal, do pesponto do bolso da bata – quantas vezes aí terei passeado os dedos nervosos, sob a carteira? A Alda, a Lina, a Helena Gomes e a Joaquina foram as minhas companheiras de carteira. A Cristina Rapoula emprestava-me os lápis de cera, ao tempo os únicos que eu conhecia. A Cristina Lopes Dias atiçava os cães da avó às colegas, mas poupou-me sempre a esse susto. Jogava às pedrinhas, à macaca, às estátuas e aos cinco cantinhos. Fazíamos coroas com as flores do pátio de recreio. As estagiárias ensinavam-nos muitas canções e dobragens em papel e no dia do exame ofereciam-nos rebuçados.
Tudo isto e muito mais que não sei dizer (como o cheiro e o burburinho dessa sala de aula), está comigo ainda, num misto de emoção e encantamento. Mas o verdadeiro fascínio da escola começou quando a Sr.ª D.ª Judite pegou no giz branco e riscou o quadro preto. Talvez tenha sido por isso que eu decidi:
− Quando for grande quero ser professora.
E, se a dada altura me deixei seduzir por cartuchos de papel pardo e sacas de farinha e arroz, rebuçados de meio tostão contados aos pares e desejei ser merceeira... ou se mais tarde sonhei entregar-me à medicina, a verdade é que cedo me defini:
− Quero ser professora.
E agora que alguns anos passaram sobre a minha estreia numa aldeia perdida entre pinheiros, pergunto-me: porque é que aqui estou? Há outras coisas que eu poderia, gostaria de fazer. Porque estou aqui? Porque cheguei aqui?
Gosto dos miúdos à minha volta? Quero ser para alguém uma Dona Judite? Foi a minha escola que me deixou o desejo de outra escola?
É esta a minha vocação?
E o que é a vocação?
Ah, não sei. Estou aqui porque sim: porque ainda me fascina o giz sobre o quadro preto. O cheiro de uma sala de aula. Os ruídos próprios de uma escola. Um ritmo interior que nos deixa desadequados noutros lugares.
Era disso que eu sentia já saudades no final das férias. Há uma respiração que só a escola me permite.
Publicado na Cartilha de Março de 1992
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Gulbenkian na medici.tv
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
As luzes do cais
a enumerar os rostos que amei.
Sou nova, pensei, Talvez
alguém deseje um pedaço de mim
e os meus olhos.
fiquei sentada. as mãos húmidas.
a boca também.
com um pauzinho de gelado
rabisquei no pó do largo deserto
alguns nomes que apaguei depois.
comprei o jornal no quiosque
e soube de lugares e paixões e mortes.
ninguém me falara daquele mar.
nem das cidades. ou do crepúsculo.
das mulheres com insónia.
É tarde, lembrei-me, É preciso voltar.
há um lume antigo no meu corpo.
escuto o longe e a memória.
ruínas de mim. e de ti.
É preciso voltar, repito,
Mas tenho medo. a noite apagou
os rastos no meu caminho.
não me lembro de que lado estou
e as luzes do cais enganam tanto.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Porque nunca aconteci
parti em silêncio sem te dizer de algemas
ao encontro do lugar suicida
presos braços ou gestos a voz ainda
na varanda das nuvens e dos temporais
calei os sinais as cores renovadas
os nomes que enchiam as paredes
vocativos do que nunca fui
mas ousei sonhar
fingi fome de ventos na minha sede de ti
árvore golpeada morro devagar
e só não sei meu amor
porque nunca aconteci.
Saudade
sábado, 13 de fevereiro de 2010
13 de Fevereiro
