segunda-feira, 2 de agosto de 2010

sexta-feira, 30 de julho de 2010

domingo, 13 de junho de 2010

Ainda abro os livros, Pai

ainda abro os livros mais antigos
onde o pai e a sua voz regressavam
para suavizar-me o exílio
ou justificar-me as inquietações

ainda choro sem que me conheça danos
me adivinhe ausências ou medos

ainda abro os livros meu Pai
e já não tenho mais nada

morro sem fé afogada em palavras

CSC








terça-feira, 8 de junho de 2010

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Crepuscular

Deixei de pronunciar o teu nome
contorno apenas na luz
que me fere ainda
os sentidos
arreganhados
num silêncio intemporal.

Quisera ser sombra
entre as sombras
que tombaram sobre nós.

Longe
sobram-me versos
ainda vestidos de ti
nesta obscuridade.

No silêncio crepuscular
soletro o teu nome
cristal tão fino
ancorado no meu peito.

CSC

domingo, 23 de maio de 2010

Noite II

Colado nas paredes estriadas

(que a Lua está cheia e

as persianas meio abertas)

navegas nas sombras repetidas

do meu quarto.


esqueço que Janeiro é frio

e que a noite entrou em nós:

estendo a mão para o telefone.

como se tivesses lugar-onde

e tempo para ser afluente

nesta minha obscuridade.


descubro que não há olhos

no teu rosto e

o frio é só

um limite na ponta dos dedos.


amanhã

dar-te-ei o longe o esquecimento

direi das sombras

as formas

e do silêncio

o bocejo

que o há-de quebrar.

CSC, Janeiro de 1986

sábado, 22 de maio de 2010

Noite I

e eu pergunto:

a noite tem mãos?


a noite vive – eu sei

sopra-me os cabelos na testa

grita alto as dores que me vivem

para eu não esquecer


depois estende a meu lado

o bolor com que me deito.


o Sol adiou o silêncio das gentes

e o orvalho foge das ervas dos meus atalhos.

ressequidos já os ecos dos meus sonhos.



e insisto:

que mãos vazias tem a noite

que nada me deu?!

CSC, Julho de 1985

segunda-feira, 17 de maio de 2010

"O Sorriso Enigmático do Javali", de António Manuel Venda


Gostaria de ter estado no sábado à tarde na Feira do Livro, no"stand" da Quetzal - estava lá António Manuel Venda. Queria cumprimentá-lo e comprar o seu novo livro. Mas não pude. Passei por lá mais tarde - foi mesmo pouco mais que uma passagem: estava frio. Fui directamente à Quetzal. Não, não sabiam se tinham o livro!
- Já está disponível online e deveria ser distribuído ontem nas livrarias - acrescentei.
- Só se for ali atrás, onde estão as novidades...
E estava, claro. A parede esquerda cheiinha de sorrisos, que é como quem diz, forrada com exemplares de "O Sorriso Enigmático do Javali". Um veio comigo.

Que agradável leitura! Que tranquilidade vivemos no montado, que inquietações partilhamos com o pequeno Tukie, de tão próximo nos sentarmos a seu lado. É uma imensa ternura pelo pequeno Tukie o que sentimos quando acaba por adormecer. Já a vínhamos experimentando desde o princípio, quando partilhamos a aventura e o espanto por detrás da objectiva da máquina fotográfica.

Deixemos descansar o pequeno Tukie, que ainda agora adormeceu. E a mãe e a bebé, que já dormiam antes de a rela vir dar corpo à última aventura.
Mas amanhã, teremos de nos juntar ao pequeno Tukie.
Dizer baixinho o nome da gineta.
Acreditar que o lagarto sabe desenhar.
Guardar um exército numa borboleta colorida.

Queremos saber tudo. O javali parou ou curou-se da doideira?
Porque tem o deputado apenas uma parte da cabeça?
Por que é que os políticos são mentirosos?

Ah, e quem dera deixar todas as cobras no estendal!

CSC,2010.05.16

sexta-feira, 14 de maio de 2010

As tuas mãos

Quis pegar-te mas mãos, tu não estavas e eu sabia, só não queria lembrar. Fui pondo rótulos bonitos em tudo quanto não sei dizer.

“Despem-se as árvores”, eu sei, “e foi o sol quem se perdeu”, mas descubro nesses dias as minhas ausências.

Sem pena.

“Dá-me as mãos”, diria, “e serei um pouco mais”.

Mas tudo isso é ainda medo e ainda pudor.

“Dá-me as mãos”. Sim, mas quero ser muito mais.

O meu tempo é este, tu sabes, não o posso perder. Hei-de um dia encontrar as palavras que agora não.

Virão ter comigo quando me olhares olhando por mim.

Setembro. 1993

terça-feira, 11 de maio de 2010

Luz inquieta

havia nas tuas palavras uma luz inquieta

que nas minhas mãos anoitecidas ganhou cor.


indefinidos ainda os teus olhos nos meus

guardarei no silêncio de cada manhã

o calor apenas pressentido dos gestos.


Lx, 17 de Março de 2004

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Quatro décadas - e eu só queria acordar




À memória de meu Pai, a quem doía tanto o Dia da Mãe.

À Inês, ao Vasco, à Marta, ao Filipe e ao Afonso, que não conheceram os Avós.

Era um pesadelo, mãe, e eu só queria acordar. Abria os olhos, estava muito calor e aquele quarto escuro não era o meu. O cheiro que chegava do jardim não era o cheiro de nossa casa. Ali, de meu só tinha o pequeno Rei Luís, adormecido há pouco, chorando, agarrado ao meu braço.

E onde estava o Tony? E onde estava o João?

Tudo tão diferente, mãe, mas o mais estranho de tudo era o silêncio. Porque no final dos nossos pesadelos nascia sempre a voz da mãe ou do pai para nos salvar de qualquer ser estranho que nos atormentasse. Naquela noite, o silêncio ganhava corpo, com forma e um odor que se adivinhava pestilento, por sobre o aroma forte das flores daquele jardim que não era nosso.

Quando amanheceu e comecei a acreditar que, finalmente, voltaríamos a casa para ouvir uma história – porque já era domingo, mãe –, um fato negro entrou, chegou junto de mim e falou. Tinha uma voz lenta e estranha, tão estranha e tão parecida com a do pai! Mas era um fato negro alto, muito mais alto que o pai e ainda mais magro e dizia coisas tão esquisitas como a voz que soava familiar:

̶ Queres ir ao funeral?

De repente, o cheiro do jardim asfixiou-me e o silêncio amarrou-me àquele fato negro que tinha a voz de meu pai.

Na sala ao lado, alguém falou e ouvi o meu Rei Luís:

̶ Quatro, tenho quatro anos.

Aconteceu uma coisa importante nesse dia, mãe, e ninguém deu por nada. Como é que só eu, tão pequena, percebi, ó mãe?! Nesse dia, Deus morreu.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Risco

não apagues os riscos – pediste

porque deles se faz o desafio

e enquanto te espero

e enquanto te adivinho

entrego-te as margens do sonho

e o leito da alma.


aprendo a contrabandear destinos

com risos dobrados

pla noite dentro.


Lx, 17 de Março de 2004

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Feira do Livro de Lisboa

Foi com pesar que soubemos do cancelamento desta exposição. Pelas crianças e por todos os amigos que estavam empenhados em acompanhá-las.

Mas teremos outras oportunidades. E agradecemos à Biblioteca dos Olivais e à Bedeteca de Lisboa, em particular a Felizarda Gil, Lisete Carvalho e Lithales Soares, todo o profissionalismo demonstrado neste projecto e, claro, o carinho com que nos convidaram e acompanharam.

* * * * * * * * *



Nos dias 8 e 9 de Maio, a partir das 14 horas, na tenda EDP, estará patente a exposição "Reinventar a Ilustração", baseada nos trabalhos desenvolvidos no âmbito do projecto "Ilustrar é Ler Mais", coordenado pela Bedeteca de Lisboa e que envolveu seis bibliotecas de Lisboa e, a convite destas, seis turmas.


A Biblioteca Municipal dos Olivais convidou a turma Joaninhas - 3.º C da EB1 Alice Vieira, que ali estará representada com os trabalhos realizados a propósito da obra de André Letria e que estiveram já expostos, em Março, na Bedeteca de Lisboa.
Contamos com a sua presença



Floresta




CSC, 2003


segunda-feira, 26 de abril de 2010

Para Fátima - e todas as pessoas que já só existem na nossa memória

"- Dói-te alguma coisa?
- Dói-me a vida, doutor.
(...)
- E o que fazes quando te assaltam essas dores?
- O que melhor sei fazer, excelência.
- E o que é?
- É sonhar."

Mia Couto, O Fio das Missangas, Caminho, 2004

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Onde o esquecimento

"dizias: tudo isto vai passar e verás que o pesadelo tem os limites do esquecimento mas que sabemos nós da memória colectiva?" José Antunes Ribeiro, in Rio do Esquecimento, 1993


E agora, pergunto, "que sabemos nós da memória colectiva" e dos buracos onde andámos, anos a fio, a esconder as mãos e os olhos para que nada buscassem?
Que sabemos nós das vozes ancoradas em náufragos, para que as não pressentissem os pássaros? Onde descobrir esquecimento para tão vigilantes pesadelos?

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Alícia

Sabia-nos bem o sol inesperado naquela manhã de Fevereiro e, por isso, ficámos à porta da escola conversando, enquanto não tocava. Foi então que a directora me disse:
− Vais ter uma nova aluna!
− Eu? Então a minha turma não estava bloqueada, com tantos miúdos com deficiência comprovada?!
− Pois, é verdade... Mas sabes como é: a Leonor e a Sónia têm turmas grandes...
− Está bem! Quem é? De onde vem?
− Há-de vir aí a tia para a trazer, chegou de Angola...
Não teve tempo para continuar, porque ali estavam, a menina e a tia, para iniciar o que seria a nova vida de Alícia. Quando a vi, estremeci. Muito pequenina e magrinha, não me pareceu que a minha turma, com alguns matulões de doze e treze anos, fosse o melhor grupo.
A tia falou, falou muito, contou tudo o que pôde no bocadinho que restava até ao toque de entrada: Alícia deixou mãe, pai e irmãos em Angola, agarrados a uma vida pobre de que dificilmente sairão. Ela, Roseta Kilombo, mandara vir a sobrinha neta para lhe proporcionar uma vida melhor, mais calma pelo menos. Mulher de armas, a tia Roseta trabalhava desde muito cedo para sustentar os filhos e amparar amigos e vizinhos. Mais tarde vim a saber que era já quarentona, mas o riso fácil e o olhar, de tão vivo, iludiam a idade, guardando uma juventude que a dureza da vida não destruiu.
Alícia ficou connosco. Olhava para tudo e todos com a inquietude da novidade, esbugalhava os olhos enquanto chuchava no dedo e ria, ria sempre. Mas era um riso triste o de Alícia. Pior que o riso dela, só o silêncio: não falava com ninguém. Participava em todas as actividades, brincava e ria, mas não falava.
A pedido, lá veio a tia Roseta. Que não, que a menina não se queixava de nada. Que gostava de todos os colegas e da senhora professora também. Que ficara muito feliz com as lembranças que muitos lhe haviam trazido, à laia de boas vindas. E, na verdade, não percebia esse caso estranho de a menina não falar ali na escola. Combinámos continuar ambas atentas e manter contacto estreito para a ajudar.
Um dia Alícia roubou o lugar ao Gelson, sentou-se a meu lado e ficou ali a trabalhar. Gelson, um malandrete à solta, tinha coração largo para os mais fracos e deixou-a ficar sem nada dizer. E Alícia encostou-se a mim. Empurrou-me devagar, devagarinho, até que a puxei para o colo. Abriu muito os olhos, mais brilhantes ainda na sua face negrinha, pôs o dedo na boca, semicerrou as pálpebras e, pouco depois, dormia.
O silêncio dos colegas, trabalhando com cuidado para a não acordar foi, como em muitas outras ocasiões, prova da solidariedade, da alma generosa que crescia no peito destes meninos quase todos oriundos de um bairro de lata.
Quando tocou para a saída, Alícia acordou e começou a chorar. Desdobrámo-nos em cuidados à sua volta, ninguém percebia aquelas lágrimas... E a menina disse então a primeira palavra que pudemos ouvir-lhe, num lamento:
− Mãe!
Apertei-a mais contra mim. Quis ganhar tempo, não sabia que dizer-lhe, porque ninguém soube nunca consolar-me pela falta da minha mãe quando ela me deixou, menina ainda, para ir para o Céu em que eu queria acreditar. Que poderia eu dizer a uma pequenina de sete anos que sente saudades de sua mãe e a sabe do outro lado do mar?
Foram os colegas quem tentou salvar a situação:
− Todos gostam de ti, Alícia. Os teus primos, os colegas, os amigos todos. A tia Roseta trata-te tão bem...
− Mas a mãe dava colinho...
Desde então, Alícia fala muito e cada vez mais. O dia do colinho (melhor, o primeiro dia do colinho, porque muitos se lhe seguiram) marcou o nosso calendário: agora, tudo se divide entre antes e depois de Alícia falar.

Portela, 9 de Outubro de 2000

quinta-feira, 15 de abril de 2010

"Meia Hora Para Mudar a Minha Vida"

O último livro que li foi "Meia Hora para Mudar a Minha Vida", de Alice Vieira, Leya/Caminho.
Destinado aos jovens, encanta também os mais velhos. Alice Vieira sabe, como noutras obras, mexer-nos na alma, tocar nas memórias e, assim, puxar-nos para o palco da sua narrativa.
E, aqui, o palco existe mesmo, numa homenagem bonita, muitas vezes emocionada e emocionante, à gente do teatro. Não admira, assim, que tenha sido alguém do teatro a apresentar a obra, na Academia de Santo Amaro, no passado dia 12.

As palavras de Virgílio Castelo são expressivas:
"A Alice Vieira quando criou estas personagens, os seus percursos, os seus objectivos, as suas contradições e os seus desenlaces, e as embrulhou nesta narrativa terna, irónica, serena e mágica, inventou-as a partir de um talento de há muito conhecido e reconhecido, e com uma mestria que a experiência ainda tornou mais exemplar. Mas criou-as para o leitor se deliciar a decifrar todos os mistérios, e a preencher com total liberdade, um mundo por ela criado para ser habitado pela imaginação de quem lê."

Ou, mais adiante: "Na verdade o que a Alice Vieira nos faz sentir é que o teatro é uma casa onde a vida só é mágica porque é profundamente verdadeira. Onde tudo o que se sente é inesquecível porque já foi vivido por muitos antes de nós, e por isso mesmo o Eu não existe, porque está sepultado em mil e um desdobramentos, não tendo nenhum mais importância que os outros."

"Meia Hora para Mudar a Minha Vida" veio fazer o intervalo em "O Último Navegador", de Virgílio Castelo, A Esfera do Livros. "Uma história empolgante e ambiciosa que nos obriga a deixar o confortável ano de 2007 e a viajar até ao desconhecido ano de 2044", pode ler-se na contracapa.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Abandono

houvesse uma gota

um breve sinal

diria Talvez volte amanhã.


terão sangue as coisas

que eu já não


trocaremos um dia

restos velharias

e um fruto apodrecido:

tão súbita a transparência

o abandono.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

"Pare, escute, olhe"

Vale a pena:
O documentário "Pare, Escute, Olhe", de Jorge Pelicano, nos cinemas a 8 de Abril.

O livro "Pare, Escute, Olhe", de Jorge Laiginhas e Leonel de Castro, Civilização Editora. Além da causa que defende e que, por si só, o justificaria, é um objecto de arte. Arte de bem escrever e de bem ver o mundo e guardá-lo em imagem.

A música de Frankie Chavez, que participa na banda sonora do filme e tem em lançamento o seu primeiro disco, onde se lê que "o segredo merece ser partilhado". É verdade!

Crer

Ainda não fui ao local mais belo da Terra e nem sequer sei onde fica. Mas tenho a certeza de que lá irei - embora não saiba explicar de onde vem essa convicção.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Redoma

fecha as portas devagar:

em redoma te quero

num sussurro d’alma.

domingo, 4 de abril de 2010

A sonhar andei perdida em ruas cheias de sol

Onde as palavras podiam ser versos

As pedras uma casa

E eu afluente

Em ti.

Esta forma de passar pelas coisas ruins

Naquele ano, mais do que em qualquer outro, o primeiro dia de aulas foi muito especial para mim. Retomava o contacto com o grupo do ano anterior e, pela primeira vez, fazia-o na qualidade de quase-mãe. Sentia que ia ser diferente a minha relação com os miúdos, alterada profundamente por uma outra, a que se estabelecera já entre mim e o bebé. Haveria agora uma cumplicidade maior, uma ternura mais forte, uma vontade grande de os olhar nos olhos, de deixar que sentissem do lado de cá a mãe e me revelassem a verdade apenas pressentida do meu próprio filho.

Passada a habitual agitação da entrada, sentei-me para conversar com a minha gente. Logo, logo, o João Paulo, amigo de colo e ternurinhas, saltou do seu lugar e veio ao meu encontro.

− Ah, não, João! Fizeste 7 anos, estás um homem, és já muito grande para vir ao colo...

E ele, naquele jeito sempre risonho de ser:

− Eu estou grande, é? E o teu colo está mais pequeno!

Tive nesse momento a certeza de que tudo ia ser bom: estava gerada a nossa nova cumplicidade.

Chamaram-me, a seguir, para ir receber um aluno recém-chegado, transferido de um colégio. Foi então que conheci o Humberto. E também a mãe do Humberto, que, falando devagar e com forte sotaque algarvio, me contou em poucas palavras a longa história do seu menino de 8 anos.

− O Humberto chumbou no ano passado, tem tido muitos problemas. Teve um acidente aos 3 anos, ficou com este problema no olho... – eu olhei uma vez mais o pequenito, que, por detrás dos óculos escuros, escondia um olho esbranquiçado, enorme e saliente. A mãe continuava:

− Nunca mais pôde ter uma vida normal: já fez sete operações sem resultado nenhum. Não pode correr nem brincar à vontade, porque a tensão no olho aumenta logo, fica cheio de dores e tem que ficar na cama, às escuras. Tudo isto o tem afectado muito; entre as operações e os tratamentos, já fez catorze anestesias gerais, ressente-se disso e de vez em quando tem crises de amnésia. É uma criança meiga e cheia de vida, mas não pode dar largas à sua energia, tem dificuldade em aceitar a situação e fica nervoso. O meu filho é muito nervoso.

Virei-me para o Humberto, meio curiosa, meio assustada. Como iria ser a nossa vida em conjunto? Seríamos capazes de criar condições para que ele se desenvolvesse harmoniosamente, com aquele condicionalismo físico? Sentia que tinha ali um desafio. Teria que conseguir «agarrar» aquela criança. E teria que dar força a esta mãe. O bebé dava voltas e voltas, enquanto durou a nossa conversa, e isso para mim era como que um empurrão: «Precisas conseguir, mãe!». Não era apenas a questão de uma responsabilidade que me chegava por via profissional: era a solidariedade que se impunha. Para com uma criança que já fora um nó no ventre, como o que eu afagava então. Para com aquela mulher que ali estava diante de mim, entregando-me a voz da sua dor. Uma dor que, sentia-o, a dominava por inteiro. E parecia-me, no entanto, que era essa mesma dor que a mantinha de pé, que lhe dava força, sempre mais força. Por um filho, temos sempre mais força do que a que julgamos possuir.

Afinal, foi tudo mais fácil do que eu julgava. Tivemos, o Humberto e eu, a ajuda incondicional e espontânea do resto da turma. Todos aceitaram bem o Humberto e foram amigos, companheiros de folia, aquilo que ele precisava de encontrar. De vez em quando, um pouco de excesso nas brincadeiras levava-o a ficar em casa, repousando, mas, de uma maneira ou de outra, o Humberto evoluiu no sentido de uma vida como a de outro miúdo da sua idade. E deixou os óculos escuros.

Há algum tempo, a mãe veio ter comigo. Mais angustiada ainda, aterrorizada com a perspectiva de, em breve, o pequenito ter que extrair aquele olho. Mais do que a operação, o que a assustava era a forma como o filho a iria aceitar e ao período de adaptação. Durante algum tempo, ele não sabia desta decisão dos médicos. Até que um dia me disse:

− Senhora professora, vou ter que faltar um tempo. Vou fazer uma operação para tirar o olho.

Foi nesse dia que me contou outros pormenores:

− Eu tinha 3 anos e vi o meu irmão a brincar com uns amigos e pedi à minha mãe para ir ter com o meu irmão. A minha mãe disse que podia ir. Quando eu ia a atravessar a estrada, um menino atirou-me um tijolo. Demorei muito a chegar ao hospital e aí comecei a choramingar e o homem deu-me dois estalos. Depois foi a operação, e o olho foi mal cosido. Por isso fiquei assim. Mas agora vou fazer uma operação, que é a prótese, eu acho que vai ser bom para mim, porque depois eu não preciso preocupar-me com o meu olho…

Ouvia-o emocionada, admirada com a maturidade com que ele me falou das implicações de ter ou não ter a prótese, dos sonhos que espera realizar quando puder mexer-se à vontade no espaço. Digo no espaço, porque no tempo mexe-se ele à vontade. As crianças têm esta vantagem sobre nós, esta grande capacidade de adaptação a tudo o que é novo, esta forma de passar pelas coisas ruins com um pé já adiante, à procura do que está mais além.

Eu gosto do Humberto e dos outros garotos, trabalhamos e divertimo-nos à grande. Rimo-nos da cara do Humberto, corado, corado, quando lhe pergunto pela namorada.

− Eu vou brincar para a praceta, eu gosto da miúda e aos sábados encontro-me sempre com ela no baile.

DN Jovem, Maio 1988

domingo, 21 de março de 2010

Alice no País da Poesia

Ainda antes de conhecer Alice Vieira, admirava-a pela enorme disponibilidade e por uma capacidade de comunicação que - tímida como eu era então - me espantava. Das suas qualidades de escritora, fala a carreira, melhor que eu. Mas hoje, Dia da Poesia encostadinho ao do seu aniversário, é de Alice no País da Poesia que prefiro falar.


"Guarda-me adormecida para sempre no teu peito

ou deixa-me voar uma vez mais
sobre esta terra de ninguém
onde morro por qualquer coisa que me fale de ti.

Há noites assim em que o silêncio se transforma
ao de leve numa lâmina que minuciosamente
rasga o linho onde ficou esquecido
o corpo que habitamos
em provisórias madrugadas felizes...
Depois é só abrir os braços e acreditar
que ainda faltam muitas horas para a partida
e que à-toa pelos corredores ainda escorre
uma razão primeira a trazer-me de volta.
E eu adormecida para sempre no teu peito.
E eu acorrentada para sempre no teu peito.
E de novo entre nós aquele choro de quem
não teve tempo de preparar a despedida
com as palavras certas;
porque as palavras certas
estavam todas em histórias erradas
que outros escreveram em lugares nublados
que nem vale a pena tentar recompor.
Muito ao longe uma voz desgarrada
estabelece o fim do verão...
E eu adormecida para sempre no teu peito
e eu acorrentada para sempre no teu peito..."

in Dois Corpos Tombando na Água

Desnorte

pedes-me um poema

em que te fale do amanhecer

que nele se sinta o sol

a tocar-nos

que juntos possamos sentir

o nascer do dia

e que não esqueça

uma brisa fresca

ah e uma névoa espraiada

sobre o vale


pedes-me um poema

a mim que anoiteci de repente?!

guardarei os versos sincopados

que me inscreves na alma

quem sabe a teu lado

voltarei a amanhecer


buscando as palavras

encostar-me-ei no teu peito

até chegar o sol do meio-dia

e as sombras dizerem do sul

o desnorte do meu querer.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Abandono

Houvesse uma gota

um breve sinal

diria Talvez volte amanhã.

Terão sangue as coisas

que eu já não.


Trocaremos um dia

restos velharias

e um fruto apodrecido:

tão súbita a transparência

o abandono.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Para a minha filha

o meu corpo foi Verão foi Alentejo

fiz das coisas simples a minha casa

quis o Sol desejei a chuva

na minha pele a seara

à espera da ceifa em tempo certo

tu foste o fruto grão redondinho

em Janeiro porque não?


nestas mãos em concha

és a água toda

que a minha sede requer.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Um Homem Singular


"Experiência não é o que acontece com um homem; é o que um homem faz com o que lhe acontece."
Aldous Huxley, citado por George Falconer [Colin Firth] em Um Homem Singular, de Tom Ford.

"Viver no passado é o meu futuro."
Charley [Julianne Moore], idem.

E, claro, recomendo o filme. Melhor do que pudesse dizer - não sei nada de cinema senão o prazer que retiro de um bom filme -, encontram, por exemplo, em:

sábado, 27 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

...

A fotografia não é minha, mas é pena - gostaria que fosse. Fui buscá-la à Casa das Letras (http://www.facebook.com/pages/Casa-das-Letras/124598197822?ref=mf).
Se eu pudesse esquecer o vento (digo, os ventos) e ler como se o meu mundo fosse ainda mais pequenino do que é, durante este fim-de-semana...

De rosas não sei

davas-me rosas.

às vezes davas-me rosas.

os olhos e o silêncio

vertias nas minhas mãos às vezes.

quando depois as luzes fugidias

me entregavam na noite em ti

eu dizia, Quero trazer à superfície

os espelhos que melhor te desenham.

eu dizia, Não é um sopro

a embriaguez que trago em mim.

eu dizia, Hei-de colher no teu peito

a linha exacta do meu horizonte.

não me ouvias. ou esqueceste. não sei.

não sei.

eram cheias as vinhas

e o sol ausentava-se devagar.

setembro talvez.

despedi-me uma manhã.

agora a mesa está vazia

e tenho nas mãos um cacho sem sabor.

de rosas não sei.


Publicado na revista Ara Gris (N.º 2, Janeiro de 1986)